Palavra do bispo

ENTREVISTA: Pensar diferente não é um problema, o problema é quando essas visões diferentes nos dividem.

Entrevista 

(Dom Antonio Carlos Cruz Snatos, msc, Bispo de Caicó/RN, concede entrevista à Equipe da FOLHA OZANAM – SSVP – Sociedade São Vicente de Paulo – OLinda e Recife/PE)

Pensar diferente não é um problema, o problema é quando essas visões diferentes nos dividem.

 

 

Dom Antônio Carlos Cruz Santos  – Bispo Diocesano da Diocese de Caicó/RN

 

Nesta edição de março/abril de 2021, entrevistamos Dom Antônio Carlos Cruz Santos, Bispo da Diocese de Caicó/RN, desde 2014. Ele é natural do Rio de Janeiro, tem 59 anos, dos quais 28 anos foram dedicados ao sacerdócio; é religioso Missionário do Sagrado Coração. Ao longo de sua formação, foi formador de sua Congregação, trabalhou na linha do acompanhamento espiritual, sobretudo dos jovens do setor juventude, e na formação dos novos religiosos da Congregação. Dom Antônio fez Especialização em acompanhamento psico–histórico-espiritual, tendo feito constelação familiar e atualmente faz Especialização em Logoterapia. Dentre vários assuntos, Dom Antônio dialogou conosco sobre a violência contra as mulheres, a comunhão entre a Igreja e a Sociedade de São Vicente de Paulo, no serviço solidário em prol dos pobres, a depressão, o diálogo inter-religioso e Dom Helder Câmara, como referencial na luta por diretos humanos, sua preferência pelos pobres e seu   trabalho focado em uma Igreja mais simples.  Uma honra para a Folha de Ozanam entrevistá-lo.

 

 

 

 

Por Equipe Folha de Ozanam

 

Folha de Ozanam:  No cenário atual qual o maior desafio da Igreja Católica? Como ser uma Igreja profética nos dias de hoje frente a tantas dificuldades, lutas e aflições e como abrir novas passagens para que o Reino de Deus, do amor, da caridade, da justiça, da união e da paz se forme, especialmente com o fim de libertar a dignidade dos nossos Mestres e Senhores, os pobres?

Dom Antônio Carlos:  Nós estamos vivendo um momento que alguns dizem, uma época de mudança ou uma mudança de época. Há uma série de transformações acontecendo no mundo e o nosso país não está isento. E a igreja está no mundo e sofre as consequências disso. E nesse momento impactado pela pandemia que estamos vivendo, acentuaram-se as tensões que nós já tínhamos. Então, as tensões internas da igreja aparecem, muito fortes, e as tensões da sociedade. O Papa Francisco, na mensagem de Natal para a Cúria Romana, no final do ano de 2020, disse que precisaria distinguir o que são conflitos e o que é crise. A crise é sempre uma possibilidade de crescimento e nós, normalmente, nos deparamos com ela, diante de uma situação que até então vigorava, mas que agora não responde mais. O conflito, é perigoso, porque nós tendemos a demonizar o outro lado. Então, a culpa é toda do outro lado, nós somos os certos e o outro lado precisa ser eliminado. Isso nós temos sentido na sociedade, e até na própria Igreja. Quantas pessoas questionando o magistério do Papa Francisco, questionando a CNBB, às vezes ficam com a palavra de uma liderança. E Igreja é Koinonia, é Comunhão; isso é próprio da Igreja. A Igreja não é uniformidade, é unidade na diversidade. Ela avança, não pela maioria, mas pelo consenso, o consenso no discernimento do Espírito de Deus. Como é que nós vamos percebendo? Como é que a Igreja, o Espírito de Deus, vai nos conduzindo? É claro que, um momento como esse, se acentua aquilo que já vivíamos na sociedade; uma sociedade assim foi descrita por São João Paulo II, quando esteve na América Latina, em Puebla no México, em 1979: “Ricos cada vez mais ricos, à custa de pobres cada vez mais pobres”. Acentua-se, nesse momento, a ação dos países ricos, saindo à frente na compra de vacinas, enquanto os países pobres ficam para trás, as medidas econômicas muitas vezes sendo tomadas em países, favorecendo aqueles que têm mais e deixando, muitas vezes descobertos os mais vulneráveis. E aí, nesse sentido, por fidelidade ao Evangelho, a Igreja precisa fazer ecoar a voz dos pobres, como a voz de Deus. Durante um certo tempo se dizia ser a voz dos que não têm voz. Não, os pobres têm voz. O que nós precisamos é fazer ecoar a voz dos pobres e dizer “é a voz de Deus”, pois a dor desses irmãos é a dor de nosso Deus.

Folha de Ozanam: Durante esse período em que o senhor está à frente da Igreja Católica, na Diocese de Caicó, no Rio Grande do Norte, quais os maiores desafios enfrentados e as principais concretizações que o Senhor aludiria? Em algum momento, se sentiu solitário?

Dom Antônio Carlos: A Diocese de Caicó está localizada no Sertão. Todo território da nossa diocese está no Sertão. Temos uma serra, mas a própria serra está em função do Sertão. Então temos 9 mil km2, temos 30 paróquias e uma área pastoral, temos um clero bom na nossa diocese, para o seu tamanho; residem na diocese mais de 45 padres, temos mais de 40 diáconos permanentes. Um desafio nosso é a questão da própria temática hídrica. Quando eu cheguei em 2014, nós já estávamos vivendo a crise hídrica, uma crise que atravessou seis anos e estamos lentamente saindo dela. Nós temos, por exemplo, a Barragem de Oiticica, que vai acolher as águas da transposição do São Francisco, ou melhor, da interligação de bacias, mas é um processo muito lento, que sofre muitas interrupções; há o movimento dos atingidos pela barragem, acompanhados pela Igreja, para que de fato a barragem avance, mas que a obra física não destrua a obra social, pensando nas pessoas que estão ali, as casas que precisam ser feitas, para que não se repita o que aconteceu com outras barragens. Então, do ponto de vista social, isso foi uma temática que absorveu muito a nossa Diocese. Depois, há aquilo que eu chamaria a prioridade das prioridades, a formação dos novos Presbíteros. E a gente deu uma atenção especial, talvez por causa de um carisma pessoal, pois eu trabalhei 17 anos na formação, gosto da formação, acredito na formação, acredito que ela precisa ser personalizada, ajudar os rapazes a discernirem a voz de Deus e precisamos ajudar às pessoas. A Igreja fala de cinco colunas da formação:  o acompanhamento espiritual, o acompanhamento humano afetivo, o comunitário, o pastoral e o acadêmico. Sobretudo acho que precisamos estar muito atentos a essas duas colunas, o acompanhamento espiritual e o acompanhamento humano afetivo. Temos procurado fazer isso na nossa Diocese, temos um bom grupo de seminarista. Agora em março, três diáconos serão ordenados presbíteros, ainda temos 18 rapazes na formação, nas suas diversas etapas. Acredito que é um desafio. Uma outra obra social que nós tivemos aqui foi a instalação da Fazenda da Esperança, para acolher pessoas que são dependentes, uma das chagas do nosso tempo. Estamos juntos com a Comunidade Boa Nova de Recife, trabalhando um projeto para criar uma Casa de Espiritualidade Sacerdotal Soledade, espécie de um lugar para um tempo sabático para os padres, quando estão passando por um momento de desgaste. Estamos caminhando dentro dessa linha. Ademais, nossa diocese tem um histórico muito vivo. Nós estamos no Sertão, há uma religiosidade bonita. Nossas festas de padroeiros são muito carregadas de religiosidade. O grande desafio é ajudar para que a religiosidade seja uma porta para uma espiritualidade. Se ficarmos somente na religiosidade, corremos o risco de ficar na soleira da porta e a espiritualidade é essa experiência profunda do Senhor que nos possibilita ter uma vida segundo o Espírito de Deus, para que não sejamos apenas cristãos de nome, mas cristãos de fato. Vocês perguntam se em algum momento eu me senti solitário? É uma graça pra mim e digo isso com muita sinceridade, a minha história vocacional, a minha história na Igreja, foi uma história muito diferente da história vocacional e da história da Igreja aqui do Seridó. Mas, por graça de Deus, é um casamento que deu certo. Não estou fazendo demagogia, estou falando com sinceridade.  Eu me sinto bem no meio do meu clero, gosto muito do meu clero, reconheço as nossas diferenças e eles, com certeza, reconhecem também, mas acredito que aquilo que nos une, que é Cristo, que é o amor de Cristo, é maior do que as nossas diferenças. E eu me sinto, então, muito bem acolhido, não só pelo clero, da Diocese de Caicó, mas pelo povo do Sertão do Seridó. Isso faz com que a gente se sinta em casa. Agora, é normal que haja momentos, quando precisamos tomar algumas decisões mais difíceis, em última instância, a gente tem que assumir a responsabilidade, a decisão é nossa. Eu sempre digo, o Bispo não tem a única palavra, ele tem a última palavra, e a última palavra, sendo palavra da comunhão, a palavra da síntese; às vezes, a última palavra precisa ser muito bem construída, muito bem rezada e, com certeza, não agrada a todo mundo. Uma motivação não é querer agradar, é procurar fazer o bem, procurar ouvir o que o Espírito está nos dizendo.

Folha de Ozanam: O Evangelista Lucas 4:18 cita: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres”.  Na mesma linha de raciocínio, São Martinho de Tours, o Bispo do episódio do manto dividido em dois, para abrigar um mendigo encontrado na rua, com frio, descreveu: “O lugar dos Bispos não é na mesa dos príncipes, mas na mesa dos Pobres”. Na condição de Pastor, qual a orientação do Senhor aos Padres, para a existência de uma comunhão entre a Igreja e a Sociedade de São Vicente de Paulo, no serviço solidário das Conferências vicentinas, em prol dos nossos senhores e mestres, os “Pobres”?

Dom Antônio Carlos:  Isso, mais do que orientação do bispo é uma orientação da própria história da nossa diocese, que existe desde 1939. E a história da Diocese de Caicó sempre levou em consideração, os pobres. Os meus antecessores, todos eles do seu jeito, tiveram essa sensibilidade, porque não é um carisma pessoal, está inerente ao Evangelho. Não é possível abraçar a Cristo, se não abraçar os pobres. Aqui em Caicó, a Caritas Diocesana funciona como um grande guarda-chuva e embaixo dela estão as diversas pastorais sociais e dentro das pastorais sociais, nós contamos com as conferências vicentinas. Então, de certa forma a Caritas se torna o ponto de comunhão, o ponto articulador. E agora, por exemplo, nesse tempo de pandemia, as pastorais sociais deram assistência, a Caritas, o SEAPAC, que têm projetos alternativos para as comunidades no Seridó, a Sociedade de São Vicente de Paulo e as paróquias fazendo campanha para ir ao socorro daquelas pessoas mais vulneráveis. Nós não temos conferências vicentinas em todas as paróquias, mas, com certeza, onde elas existem há sempre um clima de bastante acolhida, porque nós reconhecemos o trabalho sério e bonito das conferências vicentinas. E é um trabalho que não termina nunca, porque os pobres estão sempre aí para nos mostrar que o Senhor está no meio de nós.

As guerras religiosas, as chamadas guerras santas, nunca são santas; santa é a paz, é a fraternidade, é o amor.

Folha de Ozanam: Uma fraternidade universal, ecumênica e um amor social ilimitado é o sonho apresentado, na Encíclica Social “Fratelli Tutti”, pelo Papa Francisco, em 2020. É crível a fraternidade humana universal e com todos os indivíduos, num mundo onde o clamor por justiça, muitas vezes disfarça um anseio basal de vingança?

Dom Antônio Carlos: Sim, porque esse é o nosso sonho. Nós reconhecemos que em Cristo somos todos irmãos.  Cristo é o filho de Deus que se fez nosso irmão. Então, da parte de Deus, todos nós somos filhos. Da nossa parte, nós nos tornamos filhos quando reconhecemos que Jesus é o Filho de Deus que se fez nosso irmão. Mas eu não me torno Filho de Deus sozinho. Na hora que eu reconheço isso, eu reconheço que Deus é Pai Nosso. Então, reconhecer o outro como irmão, Fratelli Tutti, expressão de São Francisco, “Todos vós, sois irmãos”, é o desafio do Evangelho, é a provocação do Evangelho. Eu poderia dizer que é onde nós comprovamos a nossa fé. Não comprovamos a nossa fé só quando dizemos Deus é Pai Nosso. Quando eu reconheço que o outro é meu irmão, estou comprovando que eu, de fato, reconheço que Deus é meu Pai, é nosso Pai. Por isso, eu reconheço o outro como irmão. E como o Papa Francisco lembrou em Fratelli Tutti, a origem de toda religião é unir. Unir as pessoas com Deus e as pessoas entre si. As guerras religiosas, as chamadas guerras santas, nunca são santas; santa é a paz, é a fraternidade, é o amor. Por isso, a gente não pode se cansar de sonhar com essa fraternidade universal, e dar passos, entrar em movimentos, mesmo reconhecendo as nossas diferenças. Às vezes, na mesma família, irmãos do mesmo sangue, criados na mesma casa, pelo mesmo pai, pela mesma mãe, nós temos nossas diferenças; imagine falando em toda a humanidade. Mas devemos ser capazes de enxergar para além das nossas diferenças. Por que nós brigamos? Porque nós enxergamos somente as diferenças. Nós temos que partir daquilo que há em comum. E o que nós temos em comum? Se somos religiões, cremos num Deus. O nosso Deus une ou divide? Toda religião, se é para unir, ela vai propor o amor, a misericórdia. Como é que nós vivemos o amor e a misericórdia na diferença? Então, não é uma criação do Papa Francisco, não é uma coisa, não é um ensinamento novo, é um ensinamento eternamente novo. O Senhor Jesus viveu isso. Caminhava entre os judeus, entre os pagãos, entre os samaritanos, e assim também devemos ser nós. O problema é que muitas vezes nós queremos privatizar Deus dentro das nossas religiões e fazer guerra em nome de Deus. Por Deus, a gente nunca mata, por Deus a gente dá a vida, por Deus a gente não odeia, por Deus a gente ama.

Folha de Ozanam:  O Papa Francisco, na primeira homilia do ano de 2020, afirma: “Toda violência infringida à mulher é uma profanação de Deus, nascido de uma mulher”. Por outro lado, a Doutrina Social da Igreja anuncia os principais embasamentos na defesa da dignidade da mulher.  Os meios de comunicação vêm evidenciando o aumento no número de casos de feminicídio e violência contra a mulher. Vale ressaltar a repercussão dos casos ocorridos já em janeiro de 2021, apenas na Região Nordeste. Em 1993, a Filha da Caridade, Beata Lindalva Justus, foi morta com mais de 40 facadas, vítima da violência contra a mulher, por não corresponder a um suposto amor. A violência contra as mulheres é um dos assuntos que estará na intenção das orações do Santo Papa, ao longo do ano de 2021. Como o Senhor ajuíza esse tema, e na perspectiva do caminho religioso, como podemos atuar para acabar com essa triste realidade?

Dom Antônio Carlos: A violência contra qualquer ser humano precisa ser condenada, porque tudo aquilo que fere a dignidade do ser humano, fere o próprio Deus. Quando nós estamos falando de feminicídio, estamos falando da violência contra a mulher. E nós sabemos que o índice é muito alto, pela formação machista, que nós temos, de certa forma, vamos tolerando. Eu me lembro, quando eu era jovem, houve um crime famoso em Búzios, no Estado do Rio, e o advogado de defesa do acusado usou o termo de legítima defesa da honra, para justificar o assassinato. Então, é um tema que está aí na ordem do dia; na perspectiva cristã, nós temos que partir daquilo que já dissemos na pergunta anterior, Fratelli Tutti, somos todos irmãos. O outro é meu irmão, a outra, a mulher, é minha irmã. Carne da nossa carne, sangue do nosso sangue, somos todos filhos e filhas de Deus. Por outro lado, é preciso fazer um processo de conscientização que deve passar pelas diversas instâncias, por exemplo, pelos meios de comunicação, pelas escolas, também pelas igrejas. Essa é uma concepção diferente, um olhar diferente sobre a mulher. O que é paradoxal, tanta devoção a Nossa Senhora, exaltar tanto a figura de Maria, e ao mesmo tempo, desprezar a mulher. Dizer que a mulher é a rainha do lar e ao mesmo tempo, ser capaz de matar; é realmente necessário um processo de conscientização. Na linguagem espiritual, nós diríamos, é um processo de conversão, e reconhecer que essa mentalidade está introjetada em todos nós, porque nós bebemos disso na sociedade, inspiramos isso na sociedade. Então, nós precisamos também reconhecer o que há de machismo. Às vezes a gente diz: não, não sou machista. Mas uma piadinha ali, uma expressão, uma visão ali. O próprio Papa Francisco fala da valorização do papel da mulher na Igreja. Então, é preciso reconhecer na diferença que nós temos, o papel da mulher. São Paulo diz: “Que as mulheres não abram a boca na igreja”. Ainda bem que as mulheres não obedeceram a São Paulo, porque maciçamente são as mulheres que carregam as nossas comunidades. Imagine se as mulheres não abrissem a boca, nem abrissem os braços, nossas igrejas estariam mortas. Então, eu acho que é um processo de conscientização que precisamos viver, também dentro das nossas igrejas, a partir da nossa fé; e nós acreditamos que lentamente vamos dando esses passos. Quando eu falo lentamente, é porque sabemos que é um processo lento, mas o que não quer dizer que não tenha urgência, porque enquanto não se muda essa mentalidade, quantas irmãs estão morrendo, estão sofrendo pelo simples fato de serem mulheres.

Folha de Ozanam:   A ação da SSVP, abrange todas as formas de auxílio incluindo todas as pessoas, independente de doutrina, julgamentos, cor, origem, orientação sexual etc., por meio do contato pessoal, para abrandar o sofrimento e a elevação da dignidade humana. Neste mundo açoitado pelo abuso, como empregar o diálogo inter-religioso, na luta contra à violência, preconceitos, o racismo e a intolerância religiosa, motivando a paz?

Dom Antônio Carlos: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!” Nesta hora, minha gente, para socorrer o irmão, precisamos nos unir a todas as pessoas de boa vontade, todas as pessoas que querem fazer o bem. Quando nós estamos falando de diálogo inter-religioso, e é bom distinguir que quando falamos de diálogo ecumênico, estamos falando do diálogo com os irmãos das igrejas cristãs e quando falamos de diálogo inter-religioso, estamos falando do diálogo com aqueles que não são de religião cristã. Diante do irmão que sofre, a gente se une a qualquer irmão. E muitas vezes, a caridade vai ser o nosso ponto de encontro, porque se às vezes partimos para profissão de fé das nossas igrejas, nós vamos brigar mais ainda, vamos acusar o outro, vamos querer demonizar o outro, mas diante do irmão que sofre, somos todos irmãos. Por isso que eu acho que, tanto o diálogo ecumênico, quanto um diálogo inter-religioso, se nós temos, de fato, princípios da fidelidade a Deus, reconhecemos a Deus como Pai, reconhecemos o amor como a grande bandeira de todas as igrejas, de todas as religiões, e nós podemos avançar muito. Agora, se ficarmos defendendo apenas o nosso território, as nossas verdades, não estou com isso, relativizando as verdades, mas, depois que a gente se ama, a gente até pode dialogar. Quando a gente se odeia, até mesmo os que são iguais, brigam, não é? Então, eu acho que esse é o grande desafio: o sofrimento do irmão, o rosto do irmão, como o rosto do outro, que é Deus, deve ser um ponto de encontro nosso para vivermos a caridade com Ele e entre nós.

Folha de Ozanam: Como refletir a passagem do Evangelho de Jo 19,37 “Olharão para Aquele que transpassaram” a luz dos nossos dias?

Dom Antônio Carlos: Vocês estão usando essa expressão de Jo 19, 37, porque é o meu lema episcopal. Quando eu escolhi esse lema episcopal, escolhi como expressão do carisma da minha congregação e de meu carisma pessoal. Esse trecho é Jesus na cruz, tendo seu lado aberto, é uma das passagens da missa do Sagrado Coração, um dos Evangelhos da missa do Sagrado Coração. Quer dizer, nós reconhecemos o Coração de Jesus quando contemplamos Jesus na cruz com seu lado aberto. Então, nós temos que olhar para o transpassado, mas olhar para o transpassado nos leva a enxergar os transpassados da história e ver, neles, o transpassado que é Jesus. Há um filme sobre Spartacus que fala sobre os escravos, na época do Império Romano; existe uma cena em que há uma avenida de crucificados. Nós precisamos olhar muitas vezes, para essa avenida de crucificados na história, de pessoas sofrendo de diversas formas, pelas exclusões, e vermos nessas pessoas, como nos disseram os Bispos em Puebla, no México, olhar para seus rostos e ver o do próprio Senhor, que nos questiona, que nos interpela.

Diante do irmão que sofre, a gente se une a qualquer irmão. E muitas vezes, a caridade vai ser o nosso ponto de encontro.

Folha de Ozanam: A Igreja Católica sempre se posicionou no combate à pobreza, a desigualdade, as injustiças, em defesa dos direitos humanos, em prol da ecologia, contra o desmatamento, a favor de políticas públicas e sociais.  Há um progresso do Brasil em relação ao respeito e ascensão de suas minorias? E diante do discurso político apresentado, dá para ser otimista?

Dom Antônio Carlos: A Doutrina Social da Igreja é consequência do Evangelho. O Papa Francisco diz: “a Igreja não é uma ONG”. Aquilo que nós fazemos pelos pobres, é insistência do Evangelho. Se a gente, se a nossa fé em Cristo, não nos leva a encarnar a palavra, sobretudo, nas realidades mais duras, diante do sofrimento dos irmãos, nós espiritualizamos e não encarnamos. E a experiência cristã é uma experiência sempre na carne. “O verbo se fez carne e habitou entre nós”. Então, na realidade presente precisamos estar aí. E assim, diante de uma sociedade que tem tantas desigualdades, encarnar a palavra de Deus nos leva também a encarnar nessa realidade em desigualdade e buscar uma justiça. Claro que há um movimento mundial! Nós temos vivido e o país não está fora desse momento social, estamos vendo uma perda das conquistas sociais para os pobres. E de certa forma, cada vez mais uma elite, um grupo minoritário, tem privilégios. Por exemplo: nesse tempo de crise há pessoas que estão tendo lucros. Nós não temos, por exemplo, bancos quebrando nesse momento. Nós estamos escutando as reportagens. O cristão vive de esperança em Cristo. A gente não é nem um pessimista que acha que está tudo perdido, nem um otimista, ingênuo que acha que tudo vai se resolver. Nós acreditamos que Deus caminha conosco. Nós falamos na escatologia, é um já, e um ainda não. Ele já está no meio de nós, Ele caminha conosco, mas nós ainda não vivemos plenamente. E quando eu falo plenamente, falo nas diversas dimensões do ser humano, inclusive na dimensão social. Então, nós acreditamos nisso e é uma tensão. O Papa Francisco, naquele documento belíssimo, que ele nos deu há pouco tempo, sobre a santidade no mundo atual; na Gaudete et Exsultate, diz que precisamos suportar essa tensão por amor ao Evangelho. Gaudete et Exsultate, fala justamente da última bem-aventurança de Mateus 5:11,12. Falando daqueles que são incompreendidos, perseguidos por causa do Evangelho, em vez de ficarem deprimidos e se sentirem derrotados, alegrem-se e exultem-se, poque estamos no caminho certo, estamos sofrendo como Cristo sofreu, estamos sofrendo porque estamos vivendo a fidelidade ao Evangelho. Então, o que precisamos perguntar é isso: aquilo que nós estamos sofrendo é por causa da fidelidade do Evangelho ou estamos sofrendo justamente porque não vivemos o Evangelho? Por exemplo, estamos em pandemia e a maneira como não vivemos o espírito cristão, no cuidado da casa comum, está levando tanta gente ao sofrimento. Outra coisa é a pessoa que se contrapõe a essa mentalidade, que por isso ela é incompreendida, perseguida, caluniada, mas é porque justamente está vivendo o Evangelho. Não é possível dizer que é gostoso uma tensão, não é. Mas no meio do caminho, dizia Carlos Drummond de Andrade, tem uma pedra.  No meio do caminho do cristão há uma pedra chamada cruz, que é a entrega radical por Cristo, muitas vezes, uma entrega radical como Cristo, que passa pela incompreensão, pela perseguição, pela dor, pelo sofrimento e pela morte. Quantos mártires nós temos no dia de hoje? O Papa Francisco diz que hoje, na Igreja, temos mais mártires do que na Igreja Primitiva.

Folha de Ozanam: A principal missão da Igreja Católica Apostólica Romana é, sem sombra de dúvida, a “Evangelizadora”, dando sentido à construção de uma estrutura sólida com base nos ensinamentos que Jesus Cristo lhe confiou.  Acontece que o constante processo de mutação vivenciado pela humanidade tem distanciado os católicos de uma formação consciente pelo Evangelho, fazendo esses abdicarem da ação pastoral da Igreja.  O que o Senhor pensa acerca dos movimentos tradicionalistas que têm surgido na Igreja, questionando inclusive o Concílio Vaticano II?

Dom Antônio Carlos:  Essas tensões na Igreja sempre existiram, a Igreja sempre teve visões plurais. E eu acho que pensar diferente não é o problema, o problema é quando essas visões diferentes nos dividem. A palavra tradição quer falar da transmissão, da transmissão autêntica. A grande tradição da Igreja é o Evangelho e todo Magistério da Igreja; o ensinamento Oficial da Igreja ao longo da história, é encarnando o Evangelho nos diversos contextos da história. Por isso, a palavra tradição tem um sentido positivo.  Podemos falar do tradicionalismo. O que é o tradicionalismo? É quando alguém quer eternizar uma situação que pode até ter sido boa na história, mas não responde mais à história. Por exemplo: numa época que nós não tínhamos carros, andávamos a cavalo e íamos a cavalo para as igrejas, e até nas portas das igrejas havia aquele lugar, próprio para que os pobres que vinham pisando na lama raspassem os pés. Hoje, a sociedade evoluiu, nós temos muitas estradas asfaltadas. Portanto, querer dizer que ainda se precisa de um lugar na porta da igreja para as pessoas rasparem os pés e amarrarem os cavalos é uma situação anacrônica, é fora da época. Não é porque aquilo é ruim, mas aquilo já cumpriu o seu papel na história. O que nós precisamos é ter clareza, de que há coisas que passam, porque é próprio da criação, passar. Só Deus permanece. Então, às vezes temos essa dificuldade de perceber o que é que é o eterno, que tem que permanecer, e esse eterno encarnado vai ter compreensões diferentes na história, porque a visão do homem, pelas suas culturas, pelo tempo, amplia ou pode encurtar. Então, muitas vezes as tensões que nós temos quando falamos de tradicionalismo, estão associadas a isso: pessoas que querem eternizar o momento que foi bom, mas que já cumpriu o seu papel na história. O nosso grande desafio é, como cristãos, perguntar ao Senhor, nesse aqui e agora, que o Senhor nos chamou a viver, por que o Senhor não nos chamou a viver, nem ontem, nem amanhã? Hoje, no aqui e agora, o que o Senhor está pedindo de nós? Como encarnar a palavra de Deus, nesse aqui e agora? E o Papa Francisco tem nos ajudado muito nisso.  Eu acredito muito que o Papa Francisco é um dom de Deus para a Igreja, é um bem. E nós precisamos aprender a ouvi-lo, a ouvir Deus falando por meio do Papa Francisco. Quando nós queremos eternizar outras vozes, é um perigo muito grande.

Folha de Ozanam:  Que leitura pode ser feita da realidade brasileira, frente a essa grave crise sanitária que ameaça o mundo e nos vemos diante da polêmica sobre a vacina do coronavírus, perpetrada por um movimento negacionista, propagador de ideias contrárias à ciência, que podem ter sérias consequências, levando milhões de pessoas à morte?

Dom Antônio Carlos: Há um axioma clássico da teologia de São Gregório Nazianzeno, que diz: só foi redimido aquilo que foi assumido pelo Verbo, ou seja, só foi libertado aquilo que o Verbo de Deus assumiu. Ele assumiu a nossa humanidade e por isso nEle a gente pode se libertar do pecado. Em nossa vida, só nos libertamos daquilo que nós assumimos. Por exemplo, na dinâmica do pecado, eu reconheço, pequei Senhor, reconheço o meu pecado, me arrependo, como diz o Papa Francisco,” choro o meu pecado”. E agora, o que eu faço para reparar? Se eu fico negando o pecado, justificando o pecado, eu não me arrependo, não me converto. A mesma questão é diante dessa pandemia, negar, porque os fatos falam por si sós, a realidade está aí. Passamos de duzentos e cinquenta mil pessoas mortas, vítimas de Covid, que morreriam por outros motivos, mas não morreriam aqui e agora, como o que está acontecendo nesse momento. Então, dizer que isso não existe, é negar a realidade, é fechar os olhos. E quando negamos, a realidade continua aí. Então, precisamos assumir essa realidade, por mais dolorosa que seja, e é muito difícil assumir e perguntar: qual é a nossa parcela de culpa, qual é a nossa parcela de responsabilidade, o que nós precisamos fazer?  Graças a Deus que o movimento negacionista não é maioria na sociedade. Hoje mesmo eu escutei uma pesquisa, com alguém sendo entrevistado, e afirmava que 90% das pessoas confiam na vacina. O problema é que, agora, com as redes sociais, podemos dar uma dimensão maior do que a realidade. Se as pessoas estão bem articuladas nas redes sociais, elas são capazes de fazer uma formiga parecer um elefante, e um elefante ser apresentado como se fosse uma formiga. Então, nessa hora, precisamos anunciar a verdade. Mais do que combater o outro, devemos anunciar a verdade e ir mostrando. E a verdade, a realidade se impõe por si só.

Folha de Ozanam:  Qual o papel de Dom Antônio Carlos Cruz Santos na Igreja de hoje?

Dom Antônio Carlos: Meus irmãos, eu sou o Bispo da Igreja, igreja é comunhão de comunhão, é koinonia. Quando o Papa Francisco foi eleito no dia 13/03 /2013, lá da sacada do Palácio Apostólico, ele se apresentou como o Bispo de Roma que preside a Igreja na caridade. Então, eu estou aqui, no Sertão do Seridó, como pastor da Igreja de Caicó, em comunhão com toda a Igreja e o meu papel é o mesmo papel da Igreja. Primeiro, de gerar comunhão dessa Igreja local, com a Igreja Universal. Por isso, estamos em comunhão com o Santo Padre, em comunhão com a Igreja presente no Brasil. Logo, estamos em comunhão com a CNBB, e a CNBB somos todos nós, Bispos, nas nossas diferentes Dioceses. Temos muitas diferenças, mas o princípio da Igreja, o espírito da comunhão, é gerar comunhão entre nós, entre o clero, e entre clero e o laicato e a vida consagrada. Esse é o princípio, ajudar a Igreja do Seridó a ouvir o que Deus está nos pedindo. Quando explodiu a pandemia, nós estávamos começando um Sínodo, que foi interrompido por causa dessa pandemia. E justamente o tema do nosso Sínodo era, “Ouvir o que o Espírito diz à Igreja do Seridó”, a partir das cartas do Apocalipse, das Sete Igrejas do Apocalipse.  Nossa missão de pastor é caminhar com a Igreja e, como disse o Papa Francisco, ora à frente, para puxar a Igreja, ora no meio, para caminhar junto com a Igreja, ora atrás, para não deixar ninguém para trás, para ajudar toda a Igreja a ouvir a voz de Deus e a colocar em prática aquilo que o Senhor nos fala.

 Nós reconhecemos o trabalho sério e bonito das conferências vicentinas. E é um trabalho que não termina nunca, porque os pobres estão sempre aí, para nos mostrar que o Senhor está no meio de nós.

 

Folha de Ozanam:  Falar sobre depressão ainda é um tabu que assusta a muitos, porém que precisa ser discutido, uma vez que afeta milhões de pessoas. As mudanças, competições, opressões e cobranças da vida atual têm levado muitos indivíduos a uma crise existencial e espiritual. O fato de ser cristão não nos blinda contra a depressão, tão pouco dos seus efeitos. Sentimentos vivos de tristeza, dor, cólera, desesperança, cansaço, apatia, frustração e, em alguns casos, suicidas, são comuns. O suicídio é um ato grave e doloroso. Essa realidade afasta um cristão do amor de Deus?

Dom Antônio Carlos: Nada pode nos separar do amor de Deus e é próprio de Deus amar aquela pessoa que está sofrendo. Então, certamente quando nós estamos falando de depressão, estamos falando de uma dor profunda do ser humano e nós devemos sempre nos aproximar do irmão, com atitude de muito respeito, nos aproximar da dor do irmão, como alguém que se aproxima de uma dor muito grande, que se torna também dor de Deus, pois Deus está ali, presente. Nós sabemos que o suicídio é uma temática que nos envolve muito, em muitas regiões do Brasil. Aqui no Seridó, há uma longa história de suicídio, isso antes mesmo da pandemia. Nós sabemos que esse tempo de pandemia está impactando psicologicamente muitas pessoas e aumentando os casos de depressão, de ansiedade, e o grande desafio, nesta hora, é ajudar as pessoas a primeiro, sentirem-se que não estão sós, não negar o seu sofrimento, mas ajudar a perceber que mesmo no sofrimento podemos encontrar um sentido para a vida. Muitas vezes o irmão, quando tenta o suicídio, ou quando comete um suicídio, é porque a dor é tão grande que ele quer se ver livre dela, e naquela hora, a única possibilidade de se ver livre da dor, segundo sua visão, comprometida pela dor, é essa. É uma vida que perdeu todo o sentido. Mas, precisamos ajudar a essa pessoa, e não é fácil; e aí é necessário que se tenha um suporte espiritual, um psicológico e um psiquiátrico. Há várias coisas que estão em jogo, diante de alguém que está passando por essa situação. A pessoa precisa se perguntar: afinal, o que é que dá sentido a minha vida? A pessoa dizer; eu perdi o sentido da vida.  Mas, o que que era o sentido da sua vida? Aquilo que você perdeu de fato, era o sentido da vida? Ou você jogou suas fichas, em coisas tão passageiras, boas, mas passageiras, e quando essas coisas boas e passageiras passaram, você perdeu o sentido? Estamos falando também, de histórias. Então, há tantas situações por trás do suicídio! Por isso, precisamos ser sensíveis à dor dos irmãos. Jamais dizer que uma pessoa dessa, não vai ser amada por Deus. Devemos sim, dizer: Deus te ama. E isso deve ajudar a pessoa a encontrar forças. Claro, estou falando para alguém que tem fé. Então, se a pessoa não tem fé, nós teríamos que fazer uma outra linguagem, para ajudá-la a encontrar o sentido da vida.  Há horas em que o sofrimento é insuportável e outras, em que não é insuportável. Mas, se a pessoa tem o sentido da vida, ela amadurece no sofrimento e sai com resiliência. Por exemplo, pessoas que atravessaram a história em momentos muito dolorosos, nos campos de concentração e conseguiram sair. Pessoas que, como Chiara Lubich, e o irmão Roger de Taizé, que viveram a Segunda Guerra Mundial, e frutos dessa guerra, amadureceram na espiritualidade. Precisamos, pois, ter essa coragem. E nós, cristãos, caminhamos de esperança em esperança, como o lema episcopal do Cardeal Evaristo Arns. Esperamos contra toda humana esperança, porque a razão da nossa esperança está em Deus.

Folha de Ozanam: O Papa Francisco apela que a Igreja mantenha suas “portas abertas”. Como materializar essa Igreja, frente a resistência de cristãos excludentes e desacolhedores?

Dom Antônio Carlos: O problema é que há horas em que nós damos ênfase de forma excessiva aos aspectos negativos. Às vezes falamos daqueles que são excludentes e desacolhedores. E quantas pessoas boas que estão incluindo e acolhendo. A gente precisa também fazer viralizar o bem. Não podemos negar o contratestemunho, mas   precisamos fazer ecoar o bem. Se não, gastaremos toda energia em falar do mal e não teremos energia para fazer o bem. Uma Igreja de portas abertas significa uma Igreja que acolhe a todos, uma Igreja que vai ao encontro de todos. E esse é um desafio nosso, precisamos fazer viralizar o bem, contagiar com o bem, como diz o Papa Francisco, derrubar os muros e criar as pontes. Ponte de diálogo, ponte de amor, como nos lembra a Campanha da Fraternidade desse ano.

Folha de Ozanam: Dom Helder Câmara é reconhecido mundialmente por sua opção pela luta por diretos humanos, sua preferência pelos pobres e seu trabalho focado numa Igreja mais simples, em contato com os pobres, e pela não-violência. Há como pensar nesse universo sem seu referencial?

Dom Antônio Carlos: Quando pensamos nesses princípios, que são próprios da Doutrina Social da Igreja, como a luta pelos direitos humanos, a opção preferencial pelos pobres, a simplicidade da Igreja, o contato com os pobres, a não violência, que são princípios da Doutrina Social da Igreja, porque são evangélicos, nós precisamos de referências. E com certeza para o nosso país, para o nosso Nordeste, sobretudo para o nossa Regional Nordeste 2, que envolve as Dioceses de Pernambuco até Rio Grande do Norte, Dom Hélder Câmara é um referencial.  Ser um referencial é dar testemunho de alguém que viveu o Evangelho com radicalidade, no contexto complexo da história. E aí, quando usamos a palavra radicalidade, a usamos no sentido próprio da palavra. Radical é aquele que é capaz de ir até a raiz. Diferente da palavra extremista, pois o extremista está sempre na ponta; o cristão não é extremista, ele é radical e Dom Hélder Câmara viveu o Evangelho com radicalidade. Então, ele é inspiração para todos nós que queremos ser pastores conforme o coração do bom pastor.

Folha de Ozanam: Temos a mancha negra na nossa história do Brasil, por ter sido o último país da América Latina a abolir a escravidão. Que reflexão deixa ao nosso público sobre a importância em libertar a coragem do povo para conseguir direitos simples de cidadania, onde todos possam viver em paz e harmonia?

Dom Antônio Carlos: Quando nós falamos da história de exclusão, podemos falar de diversos segmentos, e não temos como ignorar a história do povo negro no nosso país. A Campanha da Fraternidade de 1988, no ano centenário da abolição, dizia: “Ouvi o clamor deste povo”. E a primeira coisa é perceber o que também nós introjetamos dessa história de escravidão. Exemplo disso, são os preconceitos. Quantas piadas racistas!  Vejam, por exemplo, a própria pergunta que foi feita: temos a mancha negra na nossa história do Brasil. A gente associa que aquilo que não é bom, é negro, é preto. Então, se é uma mancha negra, quando nós falamos do negro, já estamos introjetando que é uma coisa negativa.  Vejam como a gente precisa, muitas vezes, ir percebendo o que introjetamos de tudo isso. Mas, eu sempre me encanto quando vou à Aparecida do Norte.  Como morei no Rio de Janeiro e morei em São Paulo, sempre estava fazendo aquele trajeto Rio – São Paulo, e nós passávamos por Aparecida e eu parava na Basílica de Aparecida para rezar, e sempre me perguntava: como podia, uma basílica daquela, tão grande e uma imagem tão pequena? Talvez seja o convite de Deus para nós olharmos   para os pequenos da história, que são tratados como minorias, mas que são maiorias. São minorias no sentido de que são excluídos, são contados como minoria, mas assim, numericamente falando, são a maioria. Deus mostra o seu sinal através de uma mulher, que não tinha valor naquela cultura, Maria apareceu com o rosto daquela parcela da população que também não tinha valor, o povo negro. Deus dá seus sinais, e a gente precisa entender esses sinais. Deus falando a partir de uma mulher, numa cultura que muitas vezes não ouvia a voz da mulher. Deus falando através de uma imagem negra, numa cultura que não valoriza o negro em uma imagem tão pequena. Desproporcional ao tamanho da basílica. Talvez seja o convite para a gente enxergar o pequeno. E esse deve ser o nosso olhar, reconhecer que nós ainda temos situações de escravidão no nosso país, pessoas que vivem em situação análoga à escravidão, mas temos essa situação também da escravidão nas nossas relações, os preconceitos, e que precisamos avançar. Ao mesmo tempo, nós que somos do povo negro, temos que imaginar o que nós introjetamos também da escravidão. Paulo Freire dizia, Hélio Pelegrino também – uma vez eu o vi dando uma palestra: o risco é quando o oprimido introjeta o opressor, o escravo, introjeta o senhor e repete na relação com os irmãos o mesmo esquema, aquilo que eu chamo de Síndrome de Chica da Silva, que de escrava se tornou senhora, mas como senhora não fez a diferença, tratou suas escravas como as outras senhoras tratavam as suas. Precisamos ver também o que introjetamos disso, dentro de nós e depois, fazer uma leitura positiva. Somos um povo de resistência. Há um canto bonito, que diz: Deus é sua força, a razão de seu lutar. Se o povo chegou até aqui, é porque o Senhor esteve ao seu lado; se Deus não estivesse ao nosso lado, nós não estaríamos aqui, nesse momento. Como reconhecer essa força, essa resistência que vem de tudo isso, que é dom de Deus? E depois, como não engolir o ódio que nós recebemos? Porque o risco é de a gente querer, agora, pagar com a mesma moeda e o que era oprimido de ontem, agora se tornar opressor, e o que era escravo se tornar senhor; mas não podemos entrar no discurso do ódio. A gente precisa vencer o ódio com o amor. Eu, várias vezes, tenho dito que Jesus só tinha duas possibilidades de vencer a cruz, ou sendo pior do que os seus algozes, e aí ele justificaria a nossa tirania, ou agindo de uma forma que o ódio não conhece, vencendo com o amor, derrotando o mal com o bem. O perigo nosso é de a gente entrar no jogo do mal, e o cristão tem que jogar sempre no bem, “não vos canseis de fazer o bem”. Eu creio que isso precisa ser uma construção, que deve ser feita do ponto de vista espiritual, do ponto de vista psicológico e social, para que, de fato, a gente não só supere a escravidão, mas que viva uma nova relação, para não trocar apenas de senhores, ou seja, os escravos de ontem se tornarem senhores de hoje, inverter isso. E aí, nós não teremos solução. Nós não estamos na Lei de Talião, nós estamos na lei do Amor, que é o princípio maior.

 

Fonte: Equipe Ozanam – SSVP – Olinda e Recife/PE

 

 

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