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É MESMO TUDO POR AMOR E DOAÇÃO?

Os perigos que corremos hoje são muitos. Acredito que não sejam diferentes daqueles que viveram os nossos primeiros irmãos na fé, apenas com características diferentes. Se eles sofriam com as perseguições sangrentas, nós, no mundo pós-moderno, vivemos a perseguição fria, infelizmente fria em todos os sentidos. Muitas vezes o mundo que nós conhecemos e construímos trata as coisas da fé com uma cruel indiferença, até quer os benefícios do sagrado, de Deus, mas não quer nada que coloque parâmetros nisto, “não quer a Igreja”. Quando a querem é do jeito que pensam, da maneira que mais convém. Tenho falado constantemente do perigo de um cristianismo emocional, egoísta, solitário, frio…

            Temos uma meta, seguir a missão de batizados, nos assemelharmos a Jesus irmão, pastor e salvador. Não podemos esquecer este motor que tudo move, ele é o centro de nossas verdadeiras energias. Na primeira carta aos Coríntios o apóstolo Paulo, já naquele tempo, nos colocava diante desta mesma preocupação: “As rivalidades e contendas que existe no meio de vós acaso não mostram que sois carnais e que procedeis de modo humano apenas? Quando um declara: “Eu sou de Paulo” e outro: “Eu sou de Apolo”, não estais apenas no nível humano? Pois, que é Apolo? Que é Paulo? Não passam de servos pelos quais chegastes à fé. A cada um o Senhor deu uma tarefa: eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer (1 Cor 3, 3-6).

Estamos tendo mais amor às nossas invenções e particularidades do que à única Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. As rivalidades estão crescendo no meio de nós sem nos darmos conta, cada um se orgulha de ser do seu grupo, da sua pastoral, do seu movimento. O bispo – que é o pastor maior na Diocese – muitas vezes fica falando sozinho e muitas vezes nem sabemos o que ele pensa ou como quer dirigir o seu povo para a salvação. Ele é a unidade visível no meio de nós, não são – com todo o respeito que tenho a eles –  os padres e fundadores que se destacam na mídia e que fundaram verdadeiros impérios religiosos nos nossos dias. Eles são santos, belos, estão trabalhando muito pelo Reino de Deus, louvado seja Deus por isto, que suas obras cresçam mais, contudo não somos deles, somos da Igreja e esta é de Cristo. “Portanto, ninguém ponha a sua glória em ser humano algum. Sim, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus ( 1 Cor 3, 21s).

            Há uma coisa interessante aqui, pastorais vem de pastor, não são grupos de “amiguinhos” que se fecham para as outras realidades… é ação, comunhão e serviço. Ficar parados em uma reunião nos faz ter muito tempo para contendas e pouca evangelização: viver a Boa Notícia da Salvação do Filho de Deus, seguir seus passos, ter como nossas as suas idéias, atitudes, missão, etc. Parece que estamos sendo um povo muito religioso e pouco evangelizado. Estamos aqui para sermos Igreja, quem vem junto? Conhecer, amar, levar e dar-se. Todas as pastorais devem entrar na “fábrica” dos santos. Não precisamos de pastorais para elas mesmas, nem só para nós, mas para toda a criação.

A pastoral que não se fizer presente, também não vai ter presença. Temos que ter a coragem de dizer: “não conte conosco para continuar no vazio angustiante e diabólico de não fazer nada”. Se não vivemos uma experiência profunda nós é que sentiremos a falta, não esqueçamos, nós é que precisamos! Por que é tão difícil perceber isto? A Igreja cresce e cai comigo. Ela é, até um certo ponto, o que eu sou. Quanto mais egoísmo e divisão mais falta de conversão e menos testemunho. E é o que o mundo mais precisa. “Que as pessoas nos considerem como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Ora, o que se exige dos administradores é que cada um se mostre fiel. Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por alguma instância humana. Nem eu me julgo a mim mesmo… Aguardai que o Senhor venha. Ele trará à luz o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações. Então, cada um receberá de Deus o devido louvor” (1 Cor 4, 1-3.5).

Nesta perspectiva, São Paulo, deseja que nosso trabalho tenha a cara de Cristo e da Igreja, tenha o cheiro de todo estes mais de 2.000 anos de cristianismo em unidade, para a unidade, na pedagogia do serviço humilde, sem buscas exageradas por poder e sucesso. O que se espera de quem trabalha pelo Reino de Deus é que o ame e seja fiel ao Reino, não aos seus achismos. Devemos ter a coragem do Apóstolo Paulo, ele não tinha medo do que iam dizer dele, apenas queria manter-se fiel ao que tinha recebido e o que a pessoa dele representava. Quando Jesus vier tudo ficará claro, seria bom se os meus projetos, se os nossos projetos estivessem de acordo com o coração dele, não só com os nossos. Cada um receberá a recompensa se nosso desejo foi sempre servir e construir o que Deus quer de nós.

            Irmãos, se assumirmos estas características, as do amor, da unidade, da escuta, não vamos perder nada, pelo contrário, vamos ser mais da família de todos os nossos pais na fé e de nosso Senhor Jesus Cristo. “Se, portanto, existe algum conforto em Cristo, alguma consolação no amor, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, deixando-vos guiar pelos mesmos propósitos e pelo mesmo amor, em harmonia buscando a unidade. Nada façais por ambição ou vanglória, mas, com humildade, cada um considere os outros como superiores a si e não cuide somente do que é seu, mas também do é dos outros. Haja entre vós o mesmo sentir e pensar que no Cristo Jesus” (Fl 2, 1-7).

Roguemos ao Espírito Santo do Senhor que nos faça chegar a esta estatura de nosso irmão Paulo, aqui está a sabedoria e o amor com que devemos alimentar nossas vidas e nossa caminhada humana, cristã e eclesial. Que a Virgem Maria, mãe da Igreja, nos ajude a fazer parte desta barca, sem ambição e busca ou de glórias terrenas. Concluo dando graças a Deus e reafirmando a pergunta: é mesmo tudo por amor e doação?

 

Pe. Rômulo Azevedo da Silva

28 de março de 2011

 

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