Colunistas

Kledson Tiago

CAMINHA COM OS JOVENS EM DIREÇÃO A TODOS E TODAS

Poder contemplar esse olhar sensível que a igreja católica está tendo para as juventudes é muito bom. Digo juventudes porque não há mais como homogeneizar essas vivências em apenas uma categoria de juventude. Nosso tempo é marcado pela sua pluralidade. Isso é um fato.

A igreja sempre teve um olhar carinhoso para com as juventudes, e de um tempo – e digo tempo profético – para cá, vem mudando o seu olhar propositivamente. Fato é o reconhecimento da pluralidade das juventudes (Cf. CF 10). Ora, a igreja no Concílio Vaticano II já reconhecia a influência das juventudes nas sociedades, pois aquelas juventudes desejavam “tomar parte na vida social e cultural […]” (Apostolicam Actuositatem, n. 12). De lá para cá já são 54 anos. Muitas coisas foram realizadas para e outras com as juventudes, mas sem delongas cito duas linhas de ação: a) Jornadas Mundiais da Juventude; b) de modo mais próprio ao nosso chão latino-americano (ou, como prefiro chamar, latino-ameríndio): Conferências do Episcopado Latino Americano e Caribenho, que transversalmente chamaram sempre a atenção para o espírito profético das juventudes.

Chegamos a 2017, para ser mais preciso, 13 de janeiro, data esta em que o Papa Francisco escreve uma carta voltada às juventudes do mundo inteiro, anunciando que em outubro de 2018 celebrar-se-ia um sínodo totalmente dedicado a pensar o tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. O documento preparatório partiu de três pilares: 1) Os jovens no mundo de hoje; 2) Fé, discernimento, vocação; e 3) A ação pastoral. Em linhas gerais o documento servia como instrumento gerador para a abertura de diálogos, uma bússola. Foram postas questões profundas que envolvem a vida desse grupo específico, como a questão das escolhas, que por trás está presente o debate do protagonismo; os lugares atuais em que estas juventudes se encontram, o trabalho como espaço de realização de si, a missão de construir uma igreja nova em saída, que carrega a alegria do amor.

Após o sínodo, foi-nos entregue um Documento Final (DF), que peremptoriamente aprofundou esses e outros temas que avizinham-se à vida das juventudes do mundo todo. A experiência sinodal foi o derramamento do Espírito de Deus (Cf. At 2, 17; Gl 3,1) em que se fez o exercício de ouvir a voz do Espírito através das juventudes de nossa época. Três são as partes que didaticamente está dividido o documento final inspirado na passagem em que Jesus caminha com os discípulos de Emaús, a saber: a) “Pôs-se a caminhar com eles” (Lc 24, 15), b) “Os olhos deles se abriram” (Lc 24, 31) e c) “Naquela mesma hora, voltaram” (Lc 24, 33).

Nessa proposta de construção de um caminho libertador, o Papa nos convida a “ter consciência da indiferença que marca a vida de muitos cristãos”. Ora, ter a capacidade de reconhecer essa marca de nosso tempo é bater no peito e pedir perdão pelas inúmeras vezes em que nos fechamos para as dores e angústias de nossos irmãos e irmãs, de modo especial, os jovens. Caminhar com as juventudes de nosso tempo é trabalhar nos membros da igreja o desapego aos púlpitos e aos cargos de poderes, pois se faz necessário caminhar “com” e não “sobre”. Na semântica impressa pelo Sínodo, caminhar juntos é saber ouvir. No exercício do saber ouvir está o princípio do acolhimento, o respeito à dignidade do outro. A igreja tem se mostrado aberta no ouvir quando suas “instituições educacionais procuram acolher todos os jovens, independentemente de suas orientações religiosas, antecedentes culturais e condições pessoais, familiares ou sociais” (DF, n. 15). Colocar-se a caminho com as juventudes é entender o todo que circunda-os. A primeira pergunta a ser feita é: como estamos a entender as identidades juvenis? Isso porque são os jovens “geralmente portadores de uma abertura espontânea à diversidade, o que os faz atentos às questões relativas à paz, inclusão e diálogo entre culturas e religiões” (DF, n. 45). A abertura de ir ao encontro do outro, sem proselitismo, reconhecendo o outro como outro em sua integralidade nasce com a disposição própria das juventudes de lidar com a diversidade. Jesus fez isso? Obviamente, se olharmos para os Evangelhos muitos são os exemplos que podemos extrair de abertura de diálogo com o diferente. Santo Irineu já apontara: “jovem como os jovens, torna-se modelo para os jovens” (IRINEU, Contra as Heresias, II, 22,4). Jesus era revolucionário, era transgressor dos ditames legais que negavam a outridade (conceito próprio a M. Bakhtin) do outro. Por isso liberto para libertar. Somente se estivermos livres somos capazes de ir ao encontro das juventudes, seja no mundo da web, seja no mundo opresso, de relações injusta, do trabalho.

Uma outra pergunta que podemos suscitar é: como fazer nossos olhos se abrirem? Uma pista dada pelo sínodo é reconhecer, de fato, Jesus como modelo, pois ele “expressou profunda compaixão pelos mais fracos, especialmente os pobres, os doentes, os pecadores e os excluídos. Teve a coragem de enfrentar as autoridades religiosas e políticas de seu tempo” (DF, n. 63). Por muito podemos nos acomodar nas nossas estruturas religiosas e políticas pensando que tudo está bom. O Espírito de inquietude e renovação das juventudes questiona tal estrutura. Ora, é Deus falando à igreja por meio dos “por quês” juvenis, estes por muito estão mais adiantados que os próprios pastores (Cf. DF, n. 66). Nesse sentido, o papel do pastor, do líder de pastoral, dos assessores de juventudes é fazer crescer, ser uma força geradora, proporcionar espaços que a juventude possa se exercer em sua integralidade: criação, ação, espiritualidade, trabalho, descobertas e etc.. Assim, pois, o Sínodo vê como necessária a promoção de um acompanhamento integral. O jovem não é só um ser voltado ao religioso, nem é um ser social. A igreja precisa formar essa juventude a partir das duas perspectivas, de forma aberta “considerando as diversas espiritualidades e culturas, sem exclusão nem confusões” (DF, n. 99). Isto é, dado liberdade das juventudes se engajarem na vida política, buscando entender o que é política públicas, participação social e todas as violações de direitos que o circundam, como também saber dialogar com juventudes que pertençam a outros credos e culturas, sem com isso perder a sua identidade de Católico. Isso nos coloca um desafio a qual somos chamados a enfrentar, pois precisamos nos abrir a formação integral desses indivíduos.

Você pode estar se perguntando em como faremos tudo isso. Digo que a resposta é se colocar a caminho junto com as juventudes. É caminhando que se constrói e reconstrói o caminho. O “Naquela mesma hora, voltaram” nos convida a parar a agitação do momento, voltar, sentar e dialogar. No nosso tempo já não dá mais para caminhar divididos. Urge o tempo do diálogo. As juventudes não querem mais discursos proselitistas, não querem mais viver sub o julgo da suspeita de quem se pôs a caminho há mais tempo, não querem mais ouvir sermões autoritários. As juventudes querem autoridade que as façam crescer no amor. Nesse caminho, devemos sair de nossas caixas fechadas, pensar fora da bolha, como Jesus o fez. Ir às Galileias.

Neste tempo presente, é-nos feito o convite do despojamento, do desnudamento de nossas certezas, para que nas nossas relações humanas sejam almas sensíveis a outras almas. Só despojando-nos de nossas verdades estabelecidas chegaremos a conhecer A Verdade. O convite que o Sínodo nos faz é o da abertura ao diálogo, da construção de pontes e não de cercas. Esse é o chamado que Cristo Vivo nos faz!
Esse nosso bate papo não acaba aqui, iremos ainda tratar especificamente da Exortação Apostólica Christus Vivit do Papa Francisco, lançada neste mês de abril.

Feliz Páscoa a todas e todos.
Klédson Tiago Alves de Souza ([email protected])

Adicionar Comentário

Clique aqui para postar seu comentário

PALAVRA DO BISPO

Dom Antônio Carlos Cruz Santos

AGENDA DIOCESANA

DomSegTerQuaQuiSexSab
 

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

31

 
 « ‹jul 2019› »